O Movimento Simbolista veio questionar a função poética da poesia.
Em homenagem à cidade do Funchal o poeta João Gouveia (1880-1947) concebeu o magnífico poema Minha Cidade, escrito segundo o código linguístico nas primeiras décadas do séc. XX do qual transcrevemos a primeira parte:

Madeira - Funchal - Av. Arriaga - Cortesia do Bazar do Povo
“Funchal do alto mar e de altos montes
Cidade Azul que evocas a Suissa,
E onde á beira dos lagos e das fontes
Há lírios cor de neve a dizer missa.
Cidade aonde há sempre sol doirado,
Mas sempre triste de me ver chorar,
E onde passeiam, a cumprir o fado,
Tuberculosos pela beira do mar.
A tua belleza é toda meiga e suave
– Um ar de pomba, um ar temente a Deus –
O que me faz suppôr-te uma alma de ave,
Sem pecados mortaes, irmãos dos meus.
Ao meu amor mereceste mil desvellos,
O’ – do Bardo Escossez, – Dama do Lago!
Poiso d’etherea paz, com tres Castellos:
Tres ironias junto de um affago.
Pico das Frias léval o á cabeça,
San’ Thiago e Ilheu formam-te os seios:
Mas o teu corpo é como uma promessa,
Canhões em ti só p’ra soltar enleios.
Bocas de fogo são: as tuas fontes,
As tuas noites d’astros sobre o mar,
As tuas moças de morenas frontes,
O teu amante Oceano e o teu luar;
Os teus cabellos, – pinheiraes sombrios, –
Os teus dentes, – as casas côr de neve –
E a tua alma, – os campanários pios –
Tua agua, a tinta com que Deus escreve. –
Molha-te o mar a fimbria da tunica;
C’roam-te ao alto os pinheiraes da serra;
Cidade! és grande, e para mim, a unica
Que eu posso amar e querer em toda a Terra!
Eis o que o sol do alto mar avista,
Sem ver tuas miserias e vaidades,
O’ mais bella de todas as cidades!
Perto do coração, longe da vista.”
O Modernismo em Portugal impulsionado pela geração de Fernando Pessoa, Mário Sá Carneiro e Almada Negreiros determinou uma nova concepção da Literatura.
De João Cabral do Nascimento ( 1897-1978 ) transcreve-se um interessante poema integrado no livro Descaminho:

Madeira - Interior - Cortesia do Bazar do Povo
“Nas ampulhetas decorre
O tempo tão recatado!
Recomeça do outro lado
Quando toda a areia morre.
Em poeira fina escorre
E lembra, mal comparado,
Loiro príncipe encerrado
Toda a vida numa torre.
Horas tristes e cativas,
Andam mais mortas que vivas,
Tão simples e tão inquietas,
Que de si próprias se esquecem
E sempre as mesmas parecem
Ao virar as ampulhetas.”
Do livro Olimpo – 25 Poemas da Grécia que Octávio de Marialva (1898-1992) escreveu sob a máscara de Príncipe d’Arcádia, transcreve-se o soneto neo-realista Vénus que o poeta:
“A Deusa que eu amar, há-de ser bela
e radiosa como a Vénus Grega.
Na carne, a cor pagã que me arrenega.
Na alma, o ardor de uma cantante estela.
Há-de ser bela e tão fatal, que (ao vê-la),
minha fronte de Artista fique cega
para toda a beleza que não chega
à beleza da helénica donzela.
Com febre e sonho, amor, ansiedade,
meu braço no seu peito, a flor de jade,
se enlaçará, numa união perfeita.
Persiga-me, depois, estranha sorte…
Que importa? Hei-de vencer a própria Morte
Na arte em que eu cantar a Deusa Eleita!”
E do Cancioneiro o poema Cantiga:
“Deixa-te estar na minha vida
Como um navio sobre o mar.
Se o vento sopra e apaga as velas
E a noite é gélida e comprida
E a voz ecoa das procelas,
Deixa-te estar na minha vida.
Se erguem as ondas mãos de espuma
Aos céus, em cólera incontida,
E o ar se tolda e cresce a bruma,
Deixa-te estar na minha vida.
À praia, um dia, erma e esquecida,
Hei, com amor, de te levar.
Deixa-te estar na minha vida.
Como um navio sobre o mar. ”
Estes e outros poemas, poderá o leitor apreciar através da leitura do capítulo 2.18. A Ficção e a Poesia de A Verdade Madeirense e a Grande Guerra.